Com flechas, indígenas paraguaios reagem a lei ‘anti-invasão’

Bolívia: investigação do golpe chega a Camacho | Equador: motim em presídio mata 118 | Aborto avança no Chile | Colômbia: líder do ELN é morto


“Nós não somos invasores, eles são”. Gritos como este proferido pelo líder indígena Derlis López em frente ao Congresso paraguaio, na capital Assunção, deram o tom dos protestos que tomaram as ruas da cidade contra uma controversa decisão do governo: a de modificar o Código Penal e elevar de quatro para até dez anos a pena para quem ocupar propriedades privadas ilegalmente. A medida foi aprovada sem entraves pelos parlamentares em uma Casa com maioria do governista Partido Colorado e promulgada pelo presidente Mario Abdo Benítez na quinta (30), apesar de, na véspera, grupos indígenas terem dado um prazo de 48 horas para que Benítez vetasse a alteração. 

O pedido para que a modificação volte à gaveta não ficou só no aviso. Segundo a polícia, desde terça-feira (28), pelo menos 2 mil pessoas, em sua maioria indígenas, engrossaram o discurso contra o governo e agentes de segurança, usando coquetéis molotov, estilingues (ou caucheras) e até arcos e flechas para responder aos bloqueios da polícia. Uma das imagens que viralizou foi justamente a de um agente atingido por uma flechada na região da perna. Para além do perigoso precedente jurídico trazido pela nova mudança (como, por exemplo, a dúbia interpretação do que seria uma “invasão”), grupos originários dizem que o pedido vem em nome de mais de mil famílias que exigem o cumprimento do seu direito à terra, já que, alegam, são eles as vítimas históricas de invasão nestes casos. Os manifestantes haviam prometido não abandonar a Praça de Armas até que o poder público reconsiderasse. No entanto, o movimento acabou entrando em acordo com o governo e se retirando do local após a assinatura de um termo de compromisso pelo estabelecimento de uma “mesa de trabalho” para regularizar a situação das terras das comunidades originárias, além da garantia de que a nova lei não teria efeito retroativo.  

O clamor de movimentos indígenas e campesinos paraguaios também vai além da modificação dos últimos dias. Para eles, trata-se de corrigir uma violência fundiária que se intensificou nos anos da ditadura ultradireitsista de Alfredo Stroessner (1954-1989). Como todo regime conservador na América Latina, a mais longeva ditadura do continente também fez o que pôde para promover o apagamento étnico no país: segundo a Comissão de Verdade e Justiça do Paraguai, criada para revirar os escombros dos anos Stroessner, cerca de dois terços das terras entregues pela reforma agrária feita durante a ditadura saíram das mãos das poblaciones e foram parar sob a administração de figuras próximas ao então governo. “Eles nunca resolveram o problema da terra e querem nos fazer parecer criminosos”, denuncia Derlis López.

De fato, é um problema nunca resolvido e que pode ser jogado para baixo do tapete com a aprovação de uma lei que tenta desesperadamente mexer nos efeitos, mas não foca nas causas. E há um termo que explica de onde vêm as reivindicações: tierras mal habidas. Segundo a Organização Nacional Campesina (Onac), grande parte dos problemas sociais, políticos e econômicos estão diretamente relacionados a essas chamadas “terras mal ocupadas”, terrenos públicos concedidos de forma irregular durante a ditadura. Dados dão conta que, entre 1954 e 2003, quase 8 milhões de hectares de terras públicas foram entregues a políticos, militares, traficantes de drogas, e mesmo a setores do Partido Colorado (no poder na época de Stroessner e hoje). 

E isso tem relação direta não só com o poder, mas com quem atualmente veste a faixa presidencial: uma das várias famílias influentes beneficiadas pela desigual concessão de terras na ditadura é a do presidente. Marito, como é conhecido, é filho de Mario Abdo, ex-secretário pessoal do ditador Stroessner e um dos nomes mais poderosos dos anos de chumbo. Segundo dados das comissões que investigam o período de exceção, a família Abdo Benítez teria recebido ao menos 2,9 mil hectares, estimados em um preço milionário ajustado em valores atuais. Coube ao presidente, cuja linhagem foi diretamente beneficiada pelo surrupio das terras, a decisão de endurecer ou não a punição aos paraguaios que, em muitos casos, só querem o que lhes é de direito. 

Como resultado do rescaldo dos anos de repressão, além de um saldo de mais de 124 líderes campesinos mortos desde 1989 e de um conflito de terra que ainda segue vivo, o Paraguai convive com o antagônico fato de ser um dos maiores exportadores de grãos e carne do mundo, mas onde a riqueza se encontra em menos de 2,5% da população – que detém 85% das terras com boas condições para a agricultura.


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Un sonido:

DESTAQUES

🇧🇴 Investigação do golpe chega a Camacho – O inquérito do golpe de Estado boliviano de 2019 por fim chegou a um de seus principais artífices: Luis Fernando Camacho, o líder ultraconservador que, neste ano, tornou-se governador de Santa Cruz, região onde o estopim golpista que levou à queda de Evo Morales teve início. Sob investigação, Camacho está convocado para depor em La Paz na próxima quinta-feira (7), mas seus apoiadores querem que o local seja alterado: agora, o discurso do golpe comicamente se inverte, e seu partido teme que o governador seja retirado de sua cidade, onde goza de amplo apoio, para uma área do país onde deve encontrar hostilidade. Eles querem que o depoimento ocorra em Santa Cruz de la Sierra. Vale lembrar que as investigações vêm fechando o cerco contra os principais líderes do golpe de 2019, entre eles a presidenta interina Jeanine Áñez (2019-2020), que está presa há mais de seis meses, já tentou suicídio na cadeia, e nesta sexta (1º) voltou a prestar depoimento na tentativa de seguir respondendo ao processo em liberdade. Ela se diz “prisioneira política” e, como Camacho e outros cabeças do movimento de dois anos atrás, segue sustentando que houve fraude na reeleição de Evo, mesmo que isso jamais tenha sido comprovado por auditores independentes. Em El Deber. 

🇪🇨 Massacre em presídio mata 118 – O motim mais sangrento da história do Equador, mas nem sequer o único de 2021. É esse o cenário de descontrole total nas prisões do país, onde pelo menos 118 pessoas morreram (em muitos casos desmembradas e decapitadas) após mais uma onda de rebeliões em Guayaquil, no litoral do país. Até o fechamento desta edição, apenas 42 vítimas haviam sido identificadas. Mais uma vez, a urgência dos acontecimentos iniciados na terça (28) levou o governo a decretar estado de emergência em todas as penitenciárias do país, dessa vez por 60 dias. Segundo o presidente Guillermo Lasso, que nem havia sido empossado quando outros 79 foram mortos em um estopim similar, em fevereiro, a violência reincidente é resultado de anos de má gestão de seus antecessores, o que segundo ele levou a uma “disputa de poder entre gangues” equatorianas. Aproveitando o momento para fazer um gesto político, Lasso anunciou um investimento de US$ 75 milhões para restaurar instalações em todo o território. O governo também cogita indultar cerca de 2 mil detentos, em um esforço para reduzir a superlotação prisional. No entanto, como o GIRO contou neste vídeo, os massacres cada vez mais comuns e que já fazem o Equador bater recordes são retrato de um problema mais profundo. Em El Comercio.

🇨🇱 Aborto avança no Chile – A descriminalização do aborto deu um passo importante no país na terça (28), com a aprovação do projeto que autoriza a interrupção da gravidez até a 14ª semana. A votação acirrada na Câmara de Deputados contou com 75 apoios, 68 votos contrários e duas abstenções. Ainda falta, porém, um longo caminho legislativo: artigos específicos da lei deverão ser discutidos a seguir, e depois o texto ainda precisa ser remetido ao Senado. Atualmente, o Chile está no grupo de latino-americanos que só autorizam o aborto em três cenários mais conhecidos: gravidez gerada por estupro, inviabilidade do feto ou risco à vida da mãe. Via EFE.

🇨🇴 Líder do ELN é morto – Ogli Ángel Padilla Romero (vulgo Fabián), um dos líderes do Exército de Libertação Nacional (ELN), foi morto em um bombardeio militar feito há duas semanas, segundo informações do ministro da Defesa, Diego Molano, reveladas nesta terça-feira (28). Padilla foi encontrado ferido na selva, perto do local da operação, e morreu em um hospital. Nos últimos anos, com a desmobilização do núcleo duro das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), o ELN virou o principal alvo do presidente Iván Duque, que acusa a guerrilha de orientação marxista-leninista de ser a grande artífice por trás das manifestações contra o governo iniciadas em abril. Pelo Twitter, Duque comemorou a morte do guerrilheiro: “Foi neutralizado o narcoterrorista 'Fabián'; assassino de líderes sociais, narcotraficante e máximo comandante do ELN na Colômbia”. Outros 10 membros das dissidências das FARC também foram mortos nesta semana, em outro bombardeio na selva amazônica. De acordo com as Forças Armadas colombianas, ainda haveria cerca de 1,9 mil guerrilheiros atuantes em território venezuelano, com aval do governo de Nicolás Maduro. No G1.

🇭🇳 Honduras volta ao holofote por transfobia – O assassinato de mais uma ativista trans, Tatiana García, no último domingo (26), voltou a colocar o país na mira da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), que pediu a investigação do crime “com a devida diligência”. Apesar das cobranças, Honduras é notoriamente um dos países mais inseguros da região para a população trans, com precária resposta do governo aos clamores internacionais – em junho, uma decisão inédita da Corte Interamericana considerou o Estado hondurenho culpado pelo homicídio da ativista trans Vicky Hernández, em 2009, exigindo uma série de medidas de reparação (leia no GIRO #88) que avançam lentamente. Via EFE.


Un clic:

REGIÃO 🌎

Uma cobertura vegetal quase do tamanho do Chile. Foi isso que a Amazônia perdeu nos últimos 35 anos devido ao desmatamento, segundo uma pesquisa do MapBiomas divulgada nesta quinta-feira (30). A devastação de 74,6 milhões de hectares de mata nativa entre 1985 e 2020 fez com que a floresta atingisse a marca de 15% de toda sua área desmatada – até então, esse índice era de 6%. Estudos recentes apontam que a Amazônia pode entrar em um ponto de “não retorno” rumo à savanização se tiver um desmatamento de 20 a 25% da cobertura nativa, algo que pode acontecer ainda nesta década, segundo os pesquisadores. Atualmente, a Amazônia responde pela maior descarga fluvial do planeta (inclusive pelos “rios voadores” que distribuem chuvas pela região), armazena cerca de 150 a 200 bilhões de toneladas de carbono e abriga mais de 30 mil espécies de plantas e 20% de toda a fauna da Terra. O desequilíbrio ambiental que se avizinha também traz impactos diretos na vida de centenas de povos indígenas que habitam a maior floresta tropical do mundo – só no Brasil, cerca de 115 vivem isolados, e são cada vez mais ameaçados pelo avanço da mineração ilegal, da grilagem e da agropecuária. Na CNN Brasil.

Estão definidos os confrontos decisivos das duas principais competições sul-americanas de clubes de futebol: pela primeira vez na história, ambas terão finais inteiramente dominadas por um mesmo país – o Brasil. Na Copa Sul-Americana, Bragantino e Athletico Paranaense disputarão o título do segundo escalão do subcontinente; já na Copa Libertadores, o Palmeiras defenderá o troféu vencido em 2020, agora contra o Flamengo. As duas competições terão seu desfecho em Montevidéu, no Uruguai, respectivamente em 20/11 e 27/11. A semana esportiva também teve selecionado latino-americano se classificando para a final da Copa do Mundo de Futsal: a Argentina, atual campeã, eliminou o Brasil e agora disputa a taça contra Portugal. O torneio, que acontece na Lituânia, termina neste domingo (3).

ARGENTINA 🇦🇷

Após explodir com a pandemia, a pobreza teve uma retração tímida no primeiro semestre de 2021: segundo os dados consolidados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec) nesta quinta-feira (30), agora 40,6% dos argentinos se enquadram no critério, uma queda de 1,4 ponto percentual em relação ao período anterior. Já 10,7% da população está em situação de indigência. Os números permanecem próximos ao maior patamar já visto desde as crises do início do século, e especialistas apontam que a falta da recuperação real dos postos de trabalho e do poder de compra dos salários impediram que a pobreza tivesse uma redução significativa, mesmo com a reabertura da economia. No Infobae.

Em uma semana em que a América Latina registrou menos de 10 mil óbitos por covid-19 em sete dias pela primeira vez desde maio do ano passado, a Argentina colocou em vigor um novo relaxamento das restrições. Desde sexta (1º), viajantes vacinados de Brasil, Bolívia, Chile, Paraguai e Uruguai poderão ingressar pela fronteira aérea, mas ainda com várias regras: devem ter recebido a segunda dose no mínimo 14 dias antes da viagem, precisam apresentar um exame PCR negativo feito até 72 horas antes do deslocamento, e devem realizar um novo teste PCR entre o 5º e o 7º dia de estadia em solo argentino. A Argentina planeja reabrir para turistas de outros países em novembro. No G1.

BOLÍVIA 🇧🇴

Deputados da oposição apresentaram durante a semana um projeto de lei que propõe castração química para estupradores e pena de prisão perpétua para casos de parricídio e outros delitos graves. A iniciativa chegou a ser debatida em 2009, mas não avançou. Segundo os parlamentares, que estão em meio a um longo debate sobre a reforma judicial no país, endurecer o Código Penal boliviano é uma “necessidade”. Eles se apoiam em números do Ministério Público que apontam um aumento de crimes sexuais e hediondos. Na Prensa.

Continuam os conflitos em torno da eleição da nova liderança cocaleira em La Paz. A discussão já tem meses de duração, mas ganhou força na semana passada, após o governo Luis Arce reconhecer a nova direção da Associação Departamental de Produtores de Coca (Adepcoca) da região, formada por um grupo aliado ao partido governista MAS. Nesta terça (28), opositores que não aceitam o resultado marcharam pela cidade se negando a admitir a passagem de bastão e exigindo a devolução da sede do órgão, que já está sob nova administração. A manifestação entrou em conflito com a polícia e houve registro de feridos dos dois lados. Na CNN.

CHILE 🇨🇱

O governo anunciou na quarta (29) que fortalecerá a vigilância na fronteira com a Bolívia, que cada vez mais se torna um corredor para a entrada de migrantes – sejam venezuelanos entrando ou haitianos que haviam migrado até ali e agora seguem em nova travessia até o norte do continente. O Ministério do Interior prometeu enviar efetivos militares até a região, sobretudo após protestos violentos contra a presença de migrantes. Em face desse caso, a ONU demonstrou “preocupação pela violência e xenofobia”. De acordo com um relatório do Serviço Jesuíta a Migrantes (SJM), o número de pessoas que passaram pelo Chile no contexto da crise migratória supera 23 mil, 7 mil a mais do que o registrado no mesmo período do ano passado. Além das mudanças, o governo chileno também acusa seu par boliviano de não agir para conter o fluxo de pessoas. Em El Deber.

Bem menos polêmica que o aborto (leia nos destaques desta edição) foi a aprovação de um projeto com ares futuristas: com 121 votos a favor e cinco abstenções, a Câmara avançou na regulamentação dos chamados “neurodireitos”, uma busca por regulamentar tecnologias que possam afetar o cérebro. Considerada pioneira no mundo e com uma aplicação ainda abstrata, a legislação pretende “resguardar a atividade cerebral, bem como as informações provenientes da mesma”. Via AFP.


Una expresión:

Tierras mal habidas – termo usado no Paraguai para as terras que agora são alvo de disputas, cerca de 8 milhões de hectares públicos que deveriam ter sido destinados à reforma agrária mas, durante os longos anos da ditadura Stroessner, acabaram nas mãos de famílias e empresas amigas do regime. Até hoje, ninguém foi processado pelas terras mal habidas nem precisou devolver qualquer hectare recebido indevidamente.


COSTA RICA 🇨🇷

A vacinação será obrigatória para os funcionários públicos do país, em uma medida ainda rara na América Latina anunciada pelo governo durante a semana. O Ministério da Saúde também anunciou que empresas privadas serão autorizadas a exigir a vacinação de seus empregados, e a principal instituição de ensino superior do país, a Universidade da Costa Rica, também está obrigando a imunização. O governo ainda não definiu um prazo para o cumprimento da medida. A Costa Rica tem uma campanha que avança em bom ritmo, com 43% da população tendo completado o esquema vacinal, mas ainda há lacunas importantes: 30% do país sequer recebeu a primeira dose. Via Reuters.

CUBA 🇨🇺

O que há alguns anos era impossível, agora acontece: durante a semana, foi dada a largada para a atividade de 35 empresas privadas, que conseguiram o direito de existir na economia estatizada após a aprovação de decretos de lei, em agosto, que passaram a reconhecer a atividade de estabelecimentos fora da alçada do governo em Havana. Ainda que a atividade de companhias que atuam por cuenta propia não contemple setores estratégicos – como saúde, defesa e telecomunicações, que por enquanto seguem totalmente sob controle do Estado – a abertura inesperada, além de um efeito dos tempos e de uma gestão que tenta se adaptar ao mercado, é uma resposta à crise econômica impulsionada pela pandemia (saiba mais neste vídeo). Em El Mundo.

EL SALVADOR 🇸🇻

Pioneiro em adotar o bitcoin como moeda legal, o que passou a valer em 7/9, El Salvador segue investindo na propaganda para amaciar a opinião pública em torno da medida, que rendeu os primeiros protestos de massa contra o ainda popularíssimo presidente Nayib Bukele: na terça (28), o mandatário publicou um vídeo nas redes sociais mostrando o início das operações de uma instalação de mineração de bitcoin que, supostamente, utilizará energia geotérmica vulcânica. O projeto busca debelar uma das principais críticas em torno da criptomoeda: a “mineração” do bitcoin ocorre com computadores resolvendo problemas matemáticos complexos para obter novas moedas, um processo que exige grande consumo de energia elétrica e, consequentemente, teria um enorme impacto ambiental se fosse aplicado em larga escala. Com a energia de vulcão, Bukele promete que El Salvador vai minerar de maneira “100% limpa, 100% renovável e com zero emissões”. No Terra.

GUATEMALA 🇬🇹

Foram suspensos os esforços de exumação dos restos mortais de crianças indígenas massacradas nos anos 1980, durante a longa guerra civil do país, no interior de Chiul, a 200 km da Cidade da Guatemala. Moradores do local impediram que as equipes realizassem o trabalho, que acabou suspenso por falta de segurança. Não foi dada uma razão para o bloqueio, mas ativistas de direitos humanos alegam que os responsáveis por impedir a exumação estariam ligados aos grupos paramilitares acusados de cometer o crime que está sendo investigado. O objetivo da busca, na terça (28), era tentar identificar o local do sepultamento clandestino, as vítimas, e quantas teriam sido enterradas ali. O caso é um de tantos episódios similares contra o povo maia durante o conflito armado interno, que perseguiu indígenas ao acusá-los de colaboração com grupos guerrilheiros: em 21 de maio de 1988, 116 crianças de 2 a 15 anos foram torturadas e afogadas em um poço por militares. A violência contra os maias na guerra civil é qualificada como um genocídio. No Jornada.

HAITI 🇭🇹

Para surpresa de ninguém, as eleições haitianas não ocorrerão na data prevista (mais uma vez). O país, que vem adiando processos eleitorais desde 2019 e agora ainda se debate com as repercussões do assassinato (não resolvido) do presidente Jovenel Moïse, em julho, vinha trabalhando com 7/11 como a projeção para que a população fosse às urnas. Mas isso não acontecerá: nesta semana, o premiê Ariel Henry dissolveu o conselho eleitoral do país, visto como excessivamente enviesado por muitos dentro do Haiti. Em entrevista à agência AP, Henry afirmou que pretende realizar o plebiscito pela adoção da nova Constituição em fevereiro, e que a votação para definir o novo presidente (e vários cargos legislativos) deve ocorrer “cedo” em 2021. Nenhuma data concreta, porém, foi apresentada pelo primeiro-ministro – que já até apareceu implicado com suspeitos do assassinato de Moïse, mas, em vez de prestar contas à Justiça, simplesmente afastou os investigadores (veja no GIRO #99). 

MÉXICO 🇲🇽

Em primeiro lugar, queremos pedir perdão pelos crimes de Estado que foram cometidos contra seus ancestrais”. As palavras do presidente López Obrador ressoaram na terça (28) em uma cerimônia pública em Vícam, maior comunidade da etnia indígena yaqui, no estado de Sonora, no norte do México. O governo foi ao local em resposta a um apelo desta população originária, historicamente massacrada por governos, conflitos de terra e, agora, pela atividade dos cartéis de droga. Nos últimos dias, os corpos de cinco indígenas yaqui foram encontrados em valas comuns no deserto de Sonora, o que levanta hipóteses sobre o que teria motivado a matança de pessoas “que não eram ativistas” (o ativismo é um dos terríveis argumentos usados por muitos sicários mexicanos para cometer crimes nos rincões do país). Enquanto familiares dos indígenas mortos e desaparecidos seguem em vigília cobrando mais proteção e justiça, Obrador volta ao passado e projeta ajuda futura: relembrando a violência do Estado contra a etnia desde os anos do porfiriato – a ditadura do general Porfirio Díaz, que começou em 1884 e só acabaria com a Revolução Mexicana em 1911 – o presidente prometeu colocar em prática um “plano de justiça” que, além de devolver terras aos yaqui, garantiria acesso a água e proteção. A medida também concederia uma injeção de US$ 570 milhões, segundo Adelfo Regino Montes, diretor do Instituto Nacional dos Povos Indígenas. Em El País.

Depois da deportação forçada de migrantes haitianos pelos EUA (leia no GIRO #100), o México – para onde milhares deles regressaram – também busca alternativas para a nova crise. O governo mexicano mantém uma mesa de diálogo permanente com Porto Príncipe desde o dia 21/9 para discutir soluções. Nesta semana, o país enviou 70 pessoas de volta para o Haiti em voos de regresso humanitário, após elas terem optado pelo retorno voluntariamente. Ainda assim, milhares de haitianos impedidos de entrar nos EUA agora cogitam se estabelecer em solo mexicano: “o México deixou de ser um país de expulsão ou de trânsito de migrantes para se converter em um país de destino”, diz Alejandro Encinas, subsecretário de Direitos Humanos do governo. Os haitianos já são a segunda nacionalidade com mais pedidos de refúgio no México, atrás apenas dos hondurenhos. Em El País.

Em uma missiva tipicamente estadunidense, dois senadores dos EUA repreenderam o governo mexicano por não ter violado a imunidade de líderes internacionais que visitaram o país na reunião de cúpula da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), entre 16 e 18/9: para eles, o México não deveria ter recebido o cubano Miguel Díaz-Canel nem o venezuelano Nicolás Maduro e, ainda, deveria ter extraditado este último para os EUA, onde é investigado por narcotráfico. Marco Rubio e Rick Scott, senadores republicanos pela Flórida, onde o discurso anti-Cuba rende votos (Rubio, aliás, é filho de expatriados cubanos), entendem que o México está “outorgando legitimidade [ao] regime antidemocrático” da ilha, além de não respeitar tratados internacionais que o obrigariam a deter e extraditar figuras com acusações como as que pesam contra Maduro. Via AFP.


Un nombre:

Yoreme – é como a etnia yaqui – que vivia tradicionalmente no vale do rio de mesmo nome, entre os estados mexicano de Sonora e estadunidense do Arizona – se chama entre si. A palavra na língua nativa também aparece nas versões yoemem ou yo'emem e significa, ao pé da letra, ‘pessoa’. Já o nome yaqui vem de como esses indígenas chamam a própria terra, tão violada desde os tempos da invasão europeia: para eles, “nossa terra” é, simplesmente, hiakim. 


NICARÁGUA 🇳🇮

O governo recebeu da Espanha quase meio milhão de doses de vacina da Astrazeneca durante a semana, em um gesto de apoio de Madri para ajudar no avanço da vacinação nicaraguense contra a covid-19. Com a nova entrega, “o número total de vacinas doadas pela Espanha chega a 1,1 milhão”, disse a embaixada espanhola em um comunicado. A operação foi realizada por meio do mecanismo Covax, ligado à OMS, e acontece em um momento de preocupação por parte do país latino: há alguns dias, a mesma OMS suspendeu a aprovação da vacina russa Sputnik V, único imunizante adquirido pelo governo Daniel Ortega (os de outros laboratórios chegaram por meio de doação). Via AFP

Um elogio mal pensado que pegou a todos de surpresa e custou um cargo: o adido de defesa dos EUA na embaixada em Manágua, o tenente-coronel Roger Antonio Carvajal Santamaria, foi removido por seu país depois de tecer comentários elogiosos ao exército nicaraguense, que definiu como um grande responsável pelo “crescimento e estabilidade deste país”. Os EUA são duros críticos do governo Ortega, que vem em uma escalada autoritária nos últimos meses, e o exército elogiado pelo adido estadunidense é acusado de participar ativamente da perseguição a opositores. Carvajal Santamaria ainda elogiou pessoalmente o general nicaraguense Julio César Avilés, que está sancionado por Washington. No Confidencial.

PANAMÁ 🇵🇦

A crise migratória também passa pelo país. Enquanto o governo panamenho estima que ao menos 65 mil pessoas possam estar em travessia pelo território para tentar chegar aos EUA (saiba mais no abre da última edição), a tragédia humanitária deixa mais vítimas: segundo a Procuradoria do Panamá, foram descobertos na segunda (27) os corpos de três pessoas, possivelmente migrantes haitianos, que morreram em um rio localizado na província de Darién, na fronteira com a Colômbia. O corredor verde é considerado um dos pontos mais inóspitos do trajeto que leva milhares de transeuntes em desespero ao topo da América. “Houve uma enchente devido às fortes chuvas, que arrastou nove pessoas”, explicou o procurador, Julio Vergara. Segundo os últimos balanços, autoridades panamenhas já localizaram ao menos 40 corpos na região, que se torna um dos centros nervosos da nova crise migratória. Em La Estrella de Panamá

PARAGUAI 🇵🇾

A crise hídrica continuou sem trégua nos últimos dias. Depois de bater o recorde histórico para o mais baixo nível já registrado, na sexta-feira passada, o Rio Paraguai seguiu superando a marca diariamente ao longo de toda a última semana: nesta quinta (30), os marcadores no porto de Assunção registraram um nível de -0,73 m, que se manteve também na manhã seguinte. Reflexo de uma seca que se prolonga nos últimos anos (veja no GIRO #49), a baixa já fez o rio perder 18 cm na semana desde que o recorde foi batido (e a marca atual está 33 cm abaixo do que era o nível mais baixo de todos antes de 2020, os -0,40 m atingidos em 1969). Além do impacto ambiental e no abastecimento de água, o rio cada vez mais seco também afeta a navegação: segundo a entidade que representa os exportadores de cereais e oleaginosas do país, os barcos obrigados a circular com apenas 60% da capacidade normal já deixaram de escoar 2 milhões de toneladas de produtos. No Última Hora.

PERU 🇵🇪

Apenas mais um presidente às voltas com a justiça, o ex-mandatário Alejandro Toledo (2001-2006), hoje nos EUA, poderá ser extraditado ao Peru após a decisão de um juiz estadunidense. Toledo é acusado de uma série de crimes de corrupção durante seus anos no poder, e partiu para os EUA para evitar a prisão em terra natal. Segundo o Ministério Público do país andino, ele teria recebido milhões da brasileira Odebrecht em troca de concessões para a realização de obras ligando o Peru ao Brasil. Segundo o juiz que permitiu a extradição, os fatos “são suficientes” para “apoiar as acusações de conspiração e lavagem de dinheiro” contra o ex-presidente, que havia sido preso pela primeira vez em 2019, mas aguardava em regime domiciliar por conta da pandemia e enquanto o processo de extradição não saía. O assunto agora fica ao encargo do Secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken. No Gestión

O polêmico primeiro-ministro Guido Bellido deu uma mensagem clara, em meio aos esforços do governo para rever a taxação do setor de gás natural: ou pagam mais impostos, ou serão expropriados. O alvo é o consórcio que explora a jazida de Camisea, na região de Cusco, em termos que governo de esquerda que assumiu no final de julho quer renegociar. O mercado reagiu imediatamente e o dólar passou a semana batendo recordes, enquanto o presidente Pedro Castillo tentou apagar a fogueira garantindo que “qualquer renegociação se dará com respeito irrestrito ao Estado de direito e velando pelos interesses nacionais em harmonia entre o Estado e o setor privado”. Analistas entendem que o governo não dispõe de prerrogativa legal nem dos votos necessários no Congresso para realizar uma eventual nacionalização. Na DW. 


Dale un vistazo:

📚 Eu o Supremo – o romance mais famoso da literatura paraguaia, de Augusto Roa Bastos (1917-2005), recupera a intimidade dura e solitária de José Gaspar Rodríguez de Francia, prócer da independência e proclamado “ditador perpétuo” do Paraguai, cargo que ocupou de 1816 até sua morte, em 1840. Publicado em 1974, o livro também é considerado uma metáfora da ditadura de Alfredo Stroessner (1954-1989), recuperando os piores aspectos do regime do Supremo Doctor Francia, com perseguição política, racismo, exploração e injustiça contra uma população esmagada sendo temas recorrentes na obra.

📚 ‘Yo el Supremo’ foi lançado em 1974 e ganhou edição no Brasil pela Paz e Terra três anos depois. Pode ser encontrado em sebos.

PORTO RICO 🇵🇷

Uma farmacêutica admitiu ter vacinado crianças entre 7 e 11 anos com vacina da Pfizer, ainda que o uso do imunizante só tenha sido aprovado para a aplicação em crianças acima dos 12 anos. A companhia chegou a admitir que o uso de sua vacina em menores quantidades pode ser, sim, segura para pessoas na faixa etária vacinada pela enfermeira. No entanto, a prática ainda não havia sido aprovada no momento das inoculações. A especialista pode pegar uma pena de até 5 anos de prisão e arcar com uma multa que pode bater US$ 250 mil. Via AP.

REPÚBLICA DOMINICANA 🇩🇴

O governo do presidente Luis Abinader anunciou na noite de terça (28) uma série de medidas de restrição a trabalhadores que residem sem documentação na República Dominicana, jogando milhares de haitianos na incerteza. Segundo a nova determinação, que vem na esteira de uma relação cada vez mais espinhosa entre os países que dividem o território insular no Caribe (incluindo um muro erguido entre eles por obra dominicana, como contamos no GIRO #81), empresas têm um prazo de três meses para cumprir leis trabalhistas e de imigração, o que inclui uma exigência legal de que 80% da força de trabalho no país deva ser dominicana (um dispositivo criado em 1992, mas que não vinha sendo aplicado na prática). Segundo autoridades dominicanas, já há esforços para a regularização massiva de trabalhadores imigrantes. No entanto, se os prazos não forem revistos, todo o trabalho de recuperação econômica poderá ser comprometido, em especial no setor de construção civil, área em que os haitianos representam 30% da força de trabalho. Via EFE

URUGUAI 🇺🇾

O paisito segue sendo um destino cada vez mais procurado por brasileiros. De acordo com estimativas do Itamaraty, a quantidade de cidadãos do Brasil no país vizinho mais que dobrou entre 2018 e 2020, indo de pouco mais de 19 mil para cerca de 43,4 mil pessoas nesse período. Entre outros motivos, destacam-se a estabilidade socioeconômica do país, o avanço nos direitos civis e o momento de crise por que passa o Brasil. Na Veja

Uma aprovação de 61%, com rejeição de 35%. Assim performa o governo do presidente Luis Lacalle Pou, segundo uma nova pesquisa feita pela consultoria Factum. O novo levantamento mostra uma melhora na imagem do mandatário em comparação ao que foi apurado em julho de 2021, quando o Uruguai ainda não havia estabilizado totalmente a pandemia da covid-19 (meses antes, passava pelo pior momento na crise sanitária): na época, 56% aprovavam a gestão do liberal, enquanto 40% da população não concordava com sua governança. Segundo o relatório, o fim da pandemia poderá ser decisivo para as pretensões de Lacalle Pou. Na Diaria.  

VENEZUELA 🇻🇪

A pobreza aumenta, e não só pelos motivos de sempre. Segundo uma nova divulgação da Pesquisa de Condições de Vida, estudo da Universidade Católica Andrés Bello que tem se tornado cada vez mais importante diante do apagão de dados oficiais, a corrosão de salários, inflação e o agravamento da crise econômica em função do grave desabastecimento de combustível – que tem emperrado ainda mais o sistema produtivo afetado pela pandemia e reduzido a mobilidade do venezuelano – já revela um cenário em que 94,5% dos habitantes são pobres e 76,6% estão abaixo da linha de pobreza extrema. Entre outros dados, a pesquisa também mostrou que nem mesmo o apoio energético do Irã, que enviou combustível à Venezuela em momento de escassez, deu conta de evitar uma piora no quadro econômico. Em El País.

Entrou em vigor, na sexta (1º), um novo corte de zeros no bolívar: desta vez, serão seis, e 1 milhão de bolívares da véspera agora passaram a ser apenas 1 bolívar. É a terceira vez que o país recorre a uma reconversão do tipo desde 2008, já tendo eliminado 14 zeros da moeda local desde que a inflação começou a sair do controle. Trata-se de uma medida tomada muito mais pela praticidade do cálculo no dia a dia do que capaz de realmente barrar a hiperinflação, que é a maior do mundo e não dá sinais de trégua – estima-se que possa chegar a 1.600% no acumulado de 2021, embora o cálculo mude com frequência. Reconversões monetárias são comuns em tempos de hiperinflação na América do Sul (o Brasil, por exemplo, passou por cinco delas entre 1986 e 1994), mas raramente cortando tantos zeros de uma tacada só: a última vez que um país da região fez uma troca nessa razão foi há 30 anos, em 1991, quando o Peru alterou sua moeda na proporção de 1 milhão de intis para 1 nuevo sol, a moeda usada ainda hoje. Via AFP.

A União Europeia deve enviar observadores para as eleições regionais de 21/11, um processo que vem atraindo atenções por contar novamente com a participação da oposição após as ausências em anos recentes. Em 2020, por conta da pandemia, enviados estrangeiros não marcaram presença na votação que renovou a Assembleia Nacional, gerando ainda mais controvérsia em torno de eleições que tiveram um boicote voluntário dos partidos contrários a Nicolás Maduro, que acusavam o pleito de se tratar de um jogo de cartas marcadas. Via Reuters


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