🇪🇨 Noboa promete mandato ‘sem revanchismos’ no Equador
Novo presidente tomou posse em Quito na quinta-feira com discurso “sem substância”, segundo analistas. Combater a insegurança e pacificar a política são temas prioritários em mandato de 16 meses

O presidente mais jovem a ser eleito na história do Equador também será um daqueles com menos tempo para mostrar serviço. A partir da cerimônia de posse nesta última quinta-feira (23), Daniel Noboa, que faz 36 anos no próximo dia 30, terá apenas 16 meses de governo para tentar fazer alguma coisa. Inclusive pela pouca importância conferida a um mandatário-tampão, Noboa assumiu o poder em evento discreto, com poucos líderes internacionais presentes e a maior parte da América Latina já mais preocupada com outra posse, a de Javier Milei, eleito na Argentina no domingo (leia mais nos destaques da edição). Mas, se o governo será curto, nem por isso a missão se torna menos desafiadora. Descendente de uma família de magnatas da banana, sendo filho de um ex-político que tentou, sem sucesso, virar presidente em cinco oportunidades, ele agora recebe uma herança bem menos desejável: um país mergulhado em uma crise de segurança pública e marcado por disputas políticas que levaram à própria eleição extraordinária que Noboa venceu.
Tentando garantir governabilidade para esse período de transição, o governo Noboa já fez concessões aos seus ex-adversários de segundo turno antes mesmo da posse: na semana anterior, quando a Assembleia Nacional substituta (eleita junto com o presidente) tomou posse, a nova situação já havia anunciado um grande acordo nacional com representantes do Revolução Cidadã, o partido do ex-presidente Rafael Correa (2007-2017). Mesmo sem conseguir eleger como presidenta a ex-deputada Luisa González, que perdeu a votação para Noboa por uma estreita margem de menos de quatro pontos percentuais – numa proporção de 51,8% contra 48,2% dos votos, o aparente “teto” do correísmo na corrida pelo Executivo desde as eleições perdidas por eles em 2021 –, a esquerda vinculada a Correa conseguiu se manter com a maior bancada legislativa, fazendo 52 dos 137 assentos do Congresso unicameral.
O resultado, já se sabia de antemão, é que dificilmente Noboa conseguirá avançar qualquer pauta sem a anuência desses novos aliados de ocasião, que podem rapidamente se converter em opositores se o governo sair dos trilhos. Não à toa, o próprio presidente usou parte de seu breve discurso de posse para dizer que vai romper o “ciclo de revanches” políticas vividas no Equador, mesmo com sua família tendo sofrido “perseguições” de “diferentes governos” no passado.
Em diversas ocasiões durante a campanha, Noboa exaltou as qualidades de Correa como mandatário, disse que o considerava um “acadêmico” e comparou sua própria trajetória à do ex-presidente: “ganhamos nas mesmas províncias”, destacou após a vitória no primeiro turno, mas tomando distância das posições mais “extremistas” do líder político atualmente asilado na Bélgica.
Não é demais recapitular: a curta gestão de Daniel Noboa servirá apenas para cumprir o restante do período presidencial do agora ex-mandatário Guillermo Lasso (2021-2023), que deveria governar até maio de 2025, mas implodiu toda a política local no primeiro semestre ao usar o dispositivo da “morte cruzada”. Na época, colocado diante da perspectiva de sofrer um impeachment, Lasso se antecipou ao processo e usou de uma prerrogativa constitucional a partir da qual o presidente do Equador pode dissolver o Congresso, desde que pague o preço de entregar também o próprio cargo, com a convocação de eleições gerais extraordinárias em um prazo de seis meses.
Nessa transição, os grandes perdedores foram, além da própria direita mais vinculada a Lasso, os indígenas representados pelo partido Pachakutik, que dois anos antes haviam feito a maior representação de sua história (27 congressistas) e agora voltaram ao baixo patamar habitual (apenas quatro eleitos). Já para os correístas e para o Partido Social Cristão (PSC), as duas siglas que mais trabalharam pelo impeachment de Lasso, o processo antecipado rendeu frutos: mesmo sem conquistar o governo – o PSC perdeu ainda no primeiro turno, com Jan Topic, que chegou a ser apontado como possível surpresa, mas ficou em quarto lugar –, as duas siglas serão fiadoras da aliança de Noboa que, sozinho, tem apenas 14 legisladores. O PSC, embora também tenha um número modesto de deputados, garantiu uma influência maior no equilíbrio de forças ao encabeçar a direção do Congresso, com Henry Kronfle escolhido para presidir a Casa.
Prometendo evitar revanches, mas já de olho em uma nova candidatura em 2025, o jovem mandatário também se vê construindo seu castelo de cartas sobre uma aliança baseada mais na oposição a Lasso do que em uma coesão interna, com a clareza da grande e principal urgência que se desenha nesse nem um ano e meio de gestão: reduzir os índices de homicídios e crimes urbanos vinculados ao narcotráfico. Para isso, afirmou em sua curta fala, seu plano prioritário é criar empregos com “reformas urgentes”. Analistas consideraram o primeiro discurso do presidente mais focado em questões políticas do que nos temas substanciais para o país, por vezes inclusive parecendo justificar sua capacidade de governar mesmo sendo tão jovem. Mas, como deixou claro o quase septuagenário Lasso em seus anos de crise e impopularidade, ter muita ou pouca idade é um detalhe secundário para um país que só quer menos balaceras.
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🇦🇷 Javier Milei ganhou. E agora? Que o libertário de extrema direita ganhou – e ganhou bem – na Argentina, você já sabe. A pergunta que fica, agora, é o que será do país em aguda crise econômica que abre as portas para a direita radical pela primeira vez desde o final da ditadura, em 1983. Com direito a cara de poucos amigos na primeira reunião de transição, a semana teve de tudo: para começar, especula-se que Milei deu pra trás em uma de suas propostas mais incertas: a de dolarizar a economia para combater a inflação persistente – que, segundo próprio presidente eleito, demorará “de 18 a 24 meses para baixar”. O rumor ganhou força após o economista supostamente recuar da indicação de Emilio Ocampo, que tem até livro sobre o tema, para o Banco Central (BCRA) – órgão que Milei segue prometendo fechar. No lugar de Ocampo, o nome indicado seria o de Luis Caputo, ex-ministro das Finanças (2017-2018) e antigo chefe do próprio BCRA durante três meses em 2018, nos dias de Mauricio Macri como presidente; ao menos por enquanto, Caputo descarta a ideia de pulverizar o peso argentino. No entanto, Milei confirmou em entrevistas sua intenção de privatizar “o que puder”, citando a petroleira estatal YPF e canais públicos de comunicação. Uma resistência enfática ao plano ainda incerto, porém, veio de um dos líderes sindicalistas do setor aéreo: segundo o piloto Pablo Biró, “terão que nos matar, literalmente nos carregar mortos” se quiserem privatizar a Aerolíneas Argentinas, que voltou a estar sob controle do Estado em 2008 e responde pela maior parte dos voos domésticos do país. Também causaram polêmica as promessas do libertário de derrubar a Lei de Aluguéis, o que poderia retirar garantias dos inquilinos. No campo diplomático, un paso atrás e inimizades instantâneas: repetindo seu aliado Jair Bolsonaro, que também bradou ódio à China comunista durante a transição de governo e depois até se reuniu com Xi Jinping, Milei mudou o tom e agradeceu uma carta amistosa de Pequim, enviando seus “mais sinceros votos de bem-estar do povo da China”. Não é por acaso: os chineses estão entre os principais parceiros comerciais da Argentina. O Brasil, quiçá o aliado comercial e diplomático histórico de Buenos Aires, também entrou em pauta. Depois de criticar o “comunista” Lula durante a campanha, Milei amansou e disse nos últimos dias que o presidente brasileiro “será muito bem-vindo” à posse se assim desejar. Mas também houve reação negativa: conhecido por não ter papas na língua, o mexicano Andrés Manuel López Obrador classificou o desfecho eleitoral argentino de “gol contra”. Também houve reações semelhantes também por parte das Avós da Praça de Maio, organização de defesa dos direitos humanos que, desde a ditadura, encabeça uma luta histórica por reparação e memória. Dirigente máxima das abuelas, Estela de Carlotto, que já foi alvo de críticas da vice-presidenta eleita e ferrenha negacionista dos horrores da ditadura, Victoria Villarruel, Carlotto disse que a luta para encontrar desaparecidos da época do regime “não vai parar”. Todos os próximos capítulos tensos da Era Milei, que começa com a troca de faixas em 10/12, você acompanhará no seu GIRO de sempre.
🇧🇴 Incêndios na Bolívia: calor e baixa qualidade do ar levam a 13 mortes em Santa Cruz; fumaça causou suspensão de aulas e voos – O governo confirmou, na segunda-feira (20), que pelo menos 13 pessoas morreram no departamento de Santa Cruz vítimas de choques de calor – que, associados a comorbidades, levaram a quadros fatais de insolação e desidratação. Enquanto autoridades ainda prometem uma investigação mais severa a respeito dos casos, já se confirma que esses eventos estejam associados a altas temperaturas e à baixa qualidade do ar na região, com índices considerados “péssimos”, segundo análises. Especialistas também apontam os motivos por trás da piora do ar: os persistentes incêndios que afetam diversos pontos das florestas bolivianas há semanas – enquanto do lado brasileiro, o Pantanal e a Amazônia também ardem em chamas. Além de vários registros em regiões do norte e na faixa central, próximo ao território cruceño, nos últimos dias bombeiros também foram acionados para conter pelo menos 200 focos de chamas próximos à capital, La Paz. Voos e aulas foram suspensos pelo país por causa da fumaça, enquanto dezenas de pessoas têm sido detidas por queimadas ilegais. O governo destaca uma verdadeira luta para agir contra práticas que causam risco de incêndio, como queimadas não autorizadas. Estima-se que o fogo já afete mais de 2 milhões de hectares bolivianos. No Opera Mundi.
🇩🇴 Recorde de chuvas mata 24 e acende debate sobre preparação frente à crise climática – Enchentes recorde deixaram pelo menos 24 pessoas mortas e 2,5 mil desabrigadas ao longo de um evento climático que açoitou a área da capital Santo Domingo no último final de semana, no que o presidente dominicano Luis Abinader definiu como “o maior evento de chuva já registrado na história do país”, levando o governo a decretar três dias de luto nacional a partir do domingo (19). A precipitação, que bateu a marca de 400 milímetros ao longo do fim de semana e seguiria se acumulando nos dias seguintes, deu destaque a um impacto diferente da crise climática na República Dominicana, que costuma enfrentar inundações em paralelo a furacões, mas desta vez viu a chuva sem precedentes ocorrer mesmo na ausência dos ventos mais fortes. Uma tragédia em particular acendeu, também, o debate sobre a falta de preparação estrutural para lidar com a emergência do clima: nove das vítimas causadas pela tormenta da vez morreram esmagadas em seus veículos após o muro de contenção de um túnel ser derrubado pela força da água – segundo especialistas, há 20 anos as autoridades sabiam dos problemas do projeto e do risco de algo assim acontecer em função da pressão hidrostática, mas nada fizeram para evitar o desfecho visto nesta semana. Na BBC.
🇺🇾 Uruguai e China assinam compromisso por cooperação comercial, com ou sem Mercosul – Nem contra, nem a favor, muito pelo contrário. Da visita do presidente uruguaio Luis Lacalle Pou à China, durante a semana, não ficou muita certeza sobre qual será a saída encontrada pelos países ao impasse para um acordo comercial – apenas que algum acordo será feito. Com Lacalle Pou ameaçando há anos assinar um Tratado de Livre-Comércio (TLC) com Pequim à revelia do Mercosul, havia grande expectativa sobre os termos que os países usariam após o encontro desta semana, mas por enquanto a situação não muda muito: em declaração conjunta circulada na quinta-feira (23), os dois lados manifestaram tanto sua disposição a um TLC bilateral – por fora do Mercosul, visto como irregular pelo bloco – quanto a intenção de “promover o diálogo em matéria de livre-comércio entre Mercosul e China”. Com efeito real, a única mudança resultante das conversas da semana foi a elevação do patamar das relações de Montevidéu com os chineses, que agora adquire o caráter de uma “Associação Estratégica Integral”, aprofundando a cooperação comercial e diplomática. Em uma carta na qual o governo uruguaio também “reafirma sua adesão ao princípio de uma só China”, isto é, em que “Taiwan forma parte inalienável do território chinês”, observadores apontam que pode haver pressão renovada sobre o único país mercosulino que segue aliado dos taiwaneses, o Paraguai, e poderia se converter em um entrave para negociações em bloco. Via Agência Brasil.
🇵🇪 🇻🇪 Venezuela denuncia Peru por ‘xenofobia’ e ‘sequestro’ de avião da Seleção após jogo das Eliminatórias – Se tudo correu bem no empate entre as Seleções Peruana e Venezuelana de futebol masculino em Lima, na terça-feira (21), o mesmo não vale para o que rolou fora do campo no pós-jogo: horas depois da partida, a Federação Venezuelana de Futebol (FVF) publicou um comunicado denunciando que o avião que levava a Vinotinto teria sido impedido de deixar a capital peruana, fato descrito pela organização como “medidas restritivas” e “desrespeitosas”. A partir daí, virou burburinho diplomático, com mais detalhes do impasse vindo à tona durante a semana: após a nota da FVF, que logo depois ganhou endosso do próprio governo chavista, com direito acusações de “sequestro vingativo” feitas pela chancelaria em Caracas, quem entrou em cena foi o governo peruano, que negou a imposição de qualquer tipo de restrição, alegando que o problema no abastecimento da aeronave – supostamente o motivo do atraso – estaria fora da alçada do Estado. As declarações, porém, não evitaram o mal estar entre os dois países: conforme a briga evoluía, jogadores venezuelanos também relataram terem sido agredidos por policiais dentro do estádio em Lima. A delegação só decolou de volta a Caracas na quarta (22). No AS.
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Giro Latino 🤝Agência Pública – A vitória esmagadora de Javier Milei na Argentina não interessa apenas aos conservadores em terras hermanas: também agrada – e muito – nomes da extrema direita em outras partes do continente. Fruto de uma articulação reacionária que conta apoio da trupe dos Bolsonaros no Brasil, do ascendente ultraconservador José Antonio Kast no Chile e espalhando riscos de uma guinada radical de direita até no Uruguai, o resultado eleitoral em Buenos Aires liga alertas na política sul-americana. “São sustentados por uma mesma espinha dorsal baseada em uma agenda neoliberal e de mano dura”, lembra a cientista política Talita Tanscheit. Leia a reportagem completa dos editores do GIRO na Pública.
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REGIÃO 🌎
Os Jogos Parapan-Americanos de Santiago 2023 chegam ao seu último final de semana com o Brasil confirmando o amplo favoritismo nas disputas: beirando a marca de 300 medalhas, o país tem mais que o dobro de pódios dos concorrentes mais próximos no quadro, e já estabeleceu o recorde histórico de ouros na disputa – até a sexta (24), foram 132 douradas no peito dos para-atletas brasileiros, superando as 123 registradas em 2019, com mais dois dias de competições pela frente. O país vem liderando continuamente as conquistas do Parapan em todas as edições desde 2007. Agora, a próxima missão é superar o recorde total de subidas ao pódio, uma marca de 307 há quatro anos. Mais abaixo na tabela, uma disputa quente pela segunda posição entre Colômbia e Estados Unidos, com os colombianos tentando se tornar os primeiros latino-americanos a superarem os nortenhos (além do próprio Brasil) desde 2003. O quadro de medalhas e a programação que ainda resta, no site oficial de Santiago 2023.
ARGENTINA 🇦🇷
Se na política a coisa anda dividindo o país, no futebol masculino a seleção Albiceleste continua dando alegrias sem parar aos argentinos. Na terça (21) à noite, novo feito histórico para os atuais campeões do mundo: em pleno palco do Maracanã, no Rio de Janeiro, um solitário gol de cabeça de Nicolás Otamendi valeu o triunfo por 1 a 0 sobre o eterno rival Brasil, mesmo com uma exibição apagada de Lionel Messi – e após episódios de brutalidade policial contra torcedores nas arquibancadas, que atrasaram o começo da partida em quase meia hora. Acabou sendo muito mais do que uma vitória magra em uma das maiores rivalidades do esporte mundial: foi a primeira vez que a Seleção Brasileira perdeu dentro de casa em uma partida de Eliminatórias para a Copa do Mundo, após 64 partidas distribuídas ao longo de sete décadas. O Brasil era a penúltima equipe do mundo a ostentar o recorde que, agora, só é mantido pela Espanha. A Argentina, vale lembrar, já havia derrotado os brasileiros no mesmo Maracanã na decisão da Copa América de 2021, no que então era seu primeiro título em 28 anos – e a primeira derrota brasileira em casa para um adversário sul-americano por partidas competitivas em 46 anos. Sem certeza sobre quem será seu técnico para o futuro, o Brasil encerra 2023 como um dos piores anos de sua história, tendo vencido somente três partidas em nove disputadas (número que inclui amistosos) e ocupando um modestíssimo 6º lugar entre 10 equipes nas Eliminatórias – ainda suficiente para ir à Copa, mas no limite do vexame, que também seria inédito, já que a Canarinho esteve presente em todos os Mundiais até hoje. Para os argentinos, uma única preocupação: após o jogo, dizendo-se cansado e em dificuldades para manter o alto nível depois de fazer seu time ganhar tudo, o técnico Lionel Scaloni deixou aberta a porta para se afastar do comando da equipe. A tabela e as repercussões, no GE.
CHILE 🇨🇱
Números que mostram por que discursos conservadores têm cada vez mais espaço na sociedade chilena: segundo uma nova pesquisa divulgada na segunda-feira (20) pelo Centro de Estudos Públicos (CEP), quase 70% dos consultados associa a presença de imigrantes ao aumento na criminalidade no país. O estudo mostra uma tendência em alta: em 2017, num contexto anterior à pandemia de covid-19, apenas 41% dos cidadãos concordava que os dois elementos estariam relacionados – o número cai para 35% quando se volta ao ano de 2003. As duas coisas, migração e violência, têm se tornado bandeiras muito exploradas por ultraconservadores chilenos, que em 2023 passaram a ditar os rumos de discussões envolvendo a elaboração de uma nova Constituição, como explicado pelo GIRO – a proposta de novo texto passará por referendo em dezembro. O contexto também se mostra favorável para nomes da extrema direita como José Antonio Kast, derrotado no segundo turno das eleições presidenciais em 2021, mas sendo quem, atualmente, mais parece se postular como favorito nas eleições que virão em dois anos. Saiba mais sobre a articulação da direita radical latino-americana no vistazo desta edição. Em El País.
COLÔMBIA 🇨🇴
Entre memes decoloniais e condenações por fraude conhecidas na segunda-feira (20), a popstar Shakira cedeu e, por fim, pagou à Espanha um valor equivalente a R$ 39 milhões, como parte de um acordo oferecido pelo Ministério Público do país europeu. A cantora, que chegou a ficar sob risco de receber penas de até oito anos de prisão – ainda que as chances de cumpri-las fossem mínimas – alegou aos tribunais que desconhecia detalhes de sua situação financeira e fiscal diante dos compromissos no exterior que tinha em função dos shows que faz pelo mundo. Com o pagamento, Shakira disse que vai se concentrar em cuidar dos filhos, “angustiados por ver a mãe em um julgamento”. Na internet, onde a lei é outra, porém, fãs da cantora – ou mesmo haters da Europa pela brutal colonização da América – brincaram que o dinheiro não deveria ser devolvido por se tratar de reparação histórica pelos danos causados aos latino-americanos. Via Reuters.
COSTA RICA 🇨🇷
Agora, é com vocês. Foi quase isso que o presidente Rodrigo Chaves disse para o Congresso na quarta-feira (22), ao apresentar o Plano Nacional de Segurança Pública que deve vigorar até 2030, acusando os legisladores de ignorarem todas as propostas do Executivo em relação ao tema. Com a Costa Rica vivendo uma crise de segurança sem precedentes, fruto de uma escalada do poder de organizações criminosas vinculadas ao narcotráfico, a pauta se tornou central na política local e começou a abalar a popularidade do próprio Chaves, que seguia alta apesar das várias polêmicas nas quais o presidente se meteu. Revoltado em não ser ouvido e querendo tirar o corpo fora, o presidente enfatizou que “a partir deste momento, o Congresso tem absoluta responsabilidade, sem participação do Executivo, de gerar as leis que garantam a desativação eficaz e contundente dos grupos organizados”. A resposta não tardou: Rodrigo Arias, presidente do Congresso, afirmou que se Chaves lavar as mãos a respeito do tema estará cometendo delito de “descumprimento de deveres” e prevaricação, podendo ser alvo de processos políticos e criminais. Novo capítulo na guerra aberta do poder em San José. Em Nación e El Financiero.
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CUBA 🇨🇺
Ao longo das últimas semanas, diferentes ministros cubanos compareceram à TV estatal detalhando o estado da crise enfrentada pela ilha nos mais diversos setores, agravada por sanções internacionais e pelas dificuldades econômicas em função da pandemia e, depois, da guerra na Ucrânia. Em números, segundo dados apresentados pelos titulares das várias pastas, Cuba enfrenta hoje uma queda de 80% na produção de carne suína, arroz e feijão, e de 50% na produção de ovos na comparação com 2018; a indústria opera a 35% de sua capacidade; os hospitais realizam 30% menos cirurgias do que há quatro anos, afetados pela escassez de suprimentos básicos; e a frota de ônibus circulando em Havana despencou pela metade desde o início da pandemia, com apenas cerca de 300 veículos (há pouco mais de três décadas, antes do colapso da União Soviética, o número chegou a ser de 2,5 mil). O compilado dos relatos ministeriais, na Reuters.
EL SALVADOR 🇸🇻
Não é exatamente o que vem à cabeça quando se pensa em país moderno, mas foi essa a imagem que o presidente Nayib Bukele tentou vender sediando o concurso Miss Universo, celebrado em El Salvador na semana passada e com a definição da vencedora no domingo (19). Flertando com o culto à personalidade e discursando em inglês, Bukele – de olho em uma controversa reeleição, que também é vista como praticamente garantida – foi chamado ao palco durante a final e usou o espaço para enfatizar que eventos como aquele demonstram como o país mudou e se tornou mais seguro para visitantes estrangeiros em sua gestão. Do lado de fora, opositores de Bukele realizaram protestos, e o uso político do antiquado concurso também apareceu na própria vitoriosa: a faixa foi para a representante da vizinha Nicarágua, Sheynnis Palacios, que não hesitou em se associar a uma série de símbolos da oposição ao governo de Daniel Ortega.
GUATEMALA 🇬🇹
“Me estupraram. Me mandaram descer do ônibus e me estupraram na Guatemala”. A frase pesada e traumática, contada nas páginas do El País, reflete a história de muitas migrantes centro-americanas que, na busca de uma vida melhor rumo à América do Norte, são vítimas de todo tipo de extorsões e violências pelo caminho – até mesmo estupros cometidos pela própria polícia guatemalteca. A hondurenha Mayra (cuja identidade verdadeira foi preservada) e outras dezenas de migrantes descrevem como o corpo das mulheres é usado como moeda de troca nas rotas migratórias, e tanto as gangues quanto as autoridades representam uma ameaça, principalmente quando os comboios atravessam a Guatemala. Pessoas LGBTQIA+ também são alvo constante de violência sexual. De acordo com os relatos da reportagem, há diversos postos de fiscalização pelas estradas próximas à fronteira com o México, e são nesses lugares ondes os policiais cobram propinas em troca de passagem segura – quando não resta mais nada para pagar o suborno, os fardados cobram com favores sexuais, inclusive violentando menores de idade.
HAITI 🇭🇹
Semana de novidades no noticiário haitiano – mas sobre os assuntos de sempre. No campo político, a lista começou com a visita ao país do presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas, Dennis Francis, que esteve em Porto Príncipe por dois dias a partir de terça (21) para uma série de encontros com representantes do governo local. Discutindo problemas conhecidos – como saídas para o combate à violência e à crise social –, Francis se reuniu com o contestado premiê Ariel Henry, atualmente o mais alto na hierarquia do Estado, além de nomes de outros grupos políticos e da sociedade civil. A viagem do representante também acontece pouco após o Legislativo do Quênia aprovar o polêmico envio de pelo menos mil fardados (de uma polícia implicada em chacinas) ao país caribenho, como parte de um plano intermediado – e endossado – pelo Conselho de Segurança da mesma ONU. Apesar de ser do interesse do governo de Nairóbi e de já contar com aval legislativo, a medida ainda encontra barreira na Justiça da nação africana, que deve voltar ao caso em janeiro. Desdobramentos, também, no caso considerado o ponto que agravou todos os problemas no país: o assassinato do presidente Jovenel Moïse, em 2021. No início da semana, sem dar mais informações, autoridades prenderam o prefeito da cidade de Jacmel, Macky Kessa, que agora se junta a uma lista que conta com pelo menos 40 nomes – uma parcela foi extraditada aos EUA, com dois já condenados à prisão perpétua – acusadas de participar do magnicídio. Por fim, mas sem relação direta com o caso Moïse, a polícia também extraditou um suposto membro de gangue acusado de sequestrar cidadãos estadunidenses.
HONDURAS 🇭🇳
Sumiu do mapa? Alvo de uma ordem de prisão em um caso que tem prendido antigos oficiais do governo pela compra milionária e superfaturada de sete hospitais móveis durante a pandemia, a ex-ministra da Saúde, Alba Consuelo Flores, seguia desaparecida até o fechamento desta edição na sexta-feira (24). Já considerada oficialmente foragida da Justiça, Flores jamais se apresentou às autoridades e já completa mais de duas semanas sem deixar qualquer rastro. O mesmo caso já prendeu pelo menos outras três ex-funcionárias, incluindo a antiga responsável pela pasta das Finanças, Rocío Tábora. Na Prensa.
MÉXICO 🇲🇽
O governo de Sonora, estado no norte do país, reconheceu na terça-feira (21) que um polêmico projeto ferroviário que se estende pela região de fronteira com os EUA está sob controle militar e que de fato – conforme denunciam entidades – não há nenhum estudo que avalie os possíveis impactos ambientais da obra até o momento. Apesar da administração do governista Alfonso Durazo defender ganhos logísticos que viriam com o empreendimento, a nova linha ferroviária passa por trechos registrados há anos como parte da Área Natural Protegida mexicana, preocupando ambientalistas pela imensa presença de espécies características do bioma local. Moradores da região também criticam a falta de transparência para a divulgação de informações básicas a respeito da construção. A controvérsia também gerou comparações com o chamado “Trem Maia”, um megaprojeto que atravessa a península de Yucatán e é considerado a menina dos olhos do presidente Andrés Manuel López Obrador – especialistas apontam uma enormidade de riscos ao meio ambiente e a sítios arqueológicos associados ao tal trem. Via AP.
Un nombre:
María Remedios del Valle – Mulher negra, pobre e revolucionária. Nascida em Buenos Aires em 1766, a libertadora María Remedios del Valle foi uma das muitas afro-argentinas que participaram na guerra de independência das províncias do Rio da Prata (1810-1816) contra o domínio colonial. Remedios acompanhou o marido e os dois filhos na expedição militar do Alto Peru, em julho de 1810. Além de atuar no front (inicialmente à revelia de seus superiores), ajudava a cuidar dos feridos e alimentar as tropas. Um ano depois, na batalha de Huaqui, viu sua família ser morta, mas não desistiu da campanha militar: pela sua valentia no campo de batalha, María foi nomeada capitã pelo general Manuel Belgrano, criador da bandeira argentina. Foi presa pelo exército espanhol, açoitada em praça pública, sobreviveu a seis feridas de bala e escapou sete vezes do fuzilamento. Após a guerra, a capitã foi esquecida por anos, até ser identificada por um ex-oficial enquanto pedia esmola na rua, em 1828. Desde então, ganhou força a lenda dessa heroína, conhecida pelos demais soldados como “Mãe da Pátria”. María Remedios del Valle obteve pensão vitalícia, ascendeu ao posto de sargento-mor e morreu em 8 de novembro de 1847. A data marca o Dia Nacional dos Afro-Argentinos.
NICARÁGUA 🇳🇮
Acabou, e agora de forma oficial desde segunda-feira (20), a relação entre a Nicarágua e a Organização dos Estados Americanos (OEA), que já vinha se deteriorando há anos por severas críticas feitas pela entidade à situação política sob Daniel Ortega (entenda o contexto). Num lento processo de desligamento da organização desde 2021, ano em que as tais críticas aumentaram ante a prisão de vários presidenciáveis antes das eleições vencidas pelo próprio Ortega (mas jamais reconhecidas como legítimas pela OEA), o país classificou o grupo multilateral de “instrumento de intervenção do decadente governo hegemônico dos Estados Unidos”, entre outras palavras, segundo um comunicado assinado pelo chanceler Denis Moncada. Manágua também fez uma lista de golpes de Estado registrados ao longo da história política recente, atribuindo várias dessas crises à OEA – o que, em alguns casos, não é mera acusação infundada. Apenas inflamando os ânimos desse universo, quem reagiu à decisão nica foram os EUA, que por meio de seus representantes descreveram a saída formal do país centro-americano de “mais um passo para longe da democracia”. Em El País.
PANAMÁ 🇵🇦
Pelo menos até segunda-feira (20), e ainda que em menor escala, os protestos populares contra um contrato-lei que estende o tapete para a exploração de cobre no país seguiam rolando – e até já faziam a multinacional canadense por trás da operação considerar suspender as atividades (entenda aqui por que cidadãos foram as ruas nas últimas semanas). Mas, agora, é com os tribunais: o caso já está há alguns dias nas mãos da Corte Suprema de Justiça (CSJ), que admitiu uma dezena de reclamações de inconstitucionalidade contra a infame medida mineira e concordou em se manter, a partir da sexta-feira (24), “em sessão permanente” até emitir uma decisão “no menor tempo possível”, segundo seus representantes. Tudo é incerto: além de ainda não ser possível dizer exatamente o que acontecerá com o contrato após a decisão da Corte – aqui os possíveis cenários – os prazos de um eventual desmonte das instalações podem se arrastar por tempo indeterminado. Para aumentar a tensão, o lobby favorável à exploração – do qual o próprio governo já fez parte até ser acuado pelas manifestações – segue pressionando a favor da lei, argumentando que o país sentirá um enorme impacto financeiro caso ela seja revogada. Magistrados não haviam tomado nenhuma nova decisão até o fechamento desta edição.
PARAGUAI 🇵🇾
O presidente Santiago Peña, que tomou posse no último dia 15/8, completou na quinta-feira (23) seus primeiros 100 dias de governo, fazendo nas redes sociais um balanço da gestão até o momento. Muito criticado como um capacho do ex-presidente – e multi-investigado em vários processos criminais – Horacio Cartes (2013-2018), Peña exaltou o aspecto econômico, enfatizando o compromisso de não aumentar impostos, a redução nos preços de alguns insumos e a conquista da abertura do mercado dos EUA para a carna bovina paraguaia, após 25 anos de tentativas. Crítico do governo, o jornal ABC Color fez uma série de reportagens sobre os avanços e problemas enfrentados nesse início de mandato.
PERU 🇵🇪
Mais da metade da superfície glacial peruana foi perdida nas últimas seis décadas, um dado alarmante divulgado na quarta-feira (22) por especialistas que estudam o tema. Tudo piorou de uns tempos pra cá: entre 2016 e 2020, dizem estudos, pelo menos 175 geleiras foram extintas devido às mudanças climáticas. Com o derretimento acelerado, sobraram ao país pouco mais de mil quilômetros quadrados de cobertura glacial, número que pode seguir diminuindo em função de temperaturas cada vez mais altas na região. Via AP.
Um crime bárbaro, mas com desfecho frustrante para quem o testemunhou. No início de novembro, a Justiça do Peru absolveu, alegando falta de provas, o assessor presidencial do ex-ditador Alberto Fujimori (1990-2000), Vladimiro Montesinos, e o ex-líder do infame esquadrão da morte Grupo Colina, Santiago Martín Rivas (ambos já presos), pelo brutal assassinato do dirigente sindical Pedro Huilca. O crime, executado em 1992, aconteceu num momento em que Huilca se postulava como uma voz crítica à ditadura Fujimori e até hoje é visto pela família como uma resposta direta às posições políticas do dirigente. A família, por sinal, é testemunha ocular do crime: Pedro Huilca foi alvejado dentro de um carro na companhia de sua esposa e seus dois filhos. Desde então, seus familiares questionam versões oficiais que atribuíam a responsabilidade do crime à guerrilha maoísta Sendero Luminoso. Mas, apesar das acusações contra Martín Rivas, apontado como o principal autor intelectual da execução, o entendimento dos magistrados foi diferente. Ex-parlamentar e filha do dirigente morto, Indira Huilca, que estava no carro no dia macabro, criticou a decisão, dizendo que “argumentos irracionais” seguem escondendo o papel do regime fujimorista no crime. No El País.
PORTO RICO 🇵🇷
Em Washington, congressistas vinculados ao Partido Democrata voltaram a pressionar a Receita dos EUA (ou IRS, pela sigla em inglês) nos últimos dias, pedindo celeridade nas investigações sobre o abuso de alguns gringos ricos diante de uma brecha legal que garante isenções fiscais para quem se realoca para Porto Rico. Criados em 2012, os benefícios são estendidos para pessoas nascidas nos EUA continentais que compram uma casa na ilha, doam ao menos US$ 10 mil anuais a instituições de caridade porto-riquenhas e passam pelo menos metade do ano no território livre associado, entre outros requisitos. A ideia era que os estadunidenses endinheirados ajudassem a desenvolver a economia local ao se instalar na ilha, mas na prática a legislação parece só ter criado maneiras de curtir uma praia no Caribe enquanto se paga ainda menos imposto: até dois anos atrás, as autoridades não dispunham de qualquer mecanismo para verificar se as regras estavam sendo cumpridas. Hoje, os mais de 5 mil beneficiários estão sob análise que, para protesto dos democratas, ainda têm grande parte dos seus achados mantidos sob sigilo – em julho, porém, o IRS já havia indicado que pelo menos 100 pessoas estavam violando os termos e seriam alvo de investigação criminal. Na CBS.
URUGUAI 🇺🇾
A plataforma de streaming de músicas Spotify ameaçou, em nota divulgada na segunda (20), retirar-se definitivamente do Uruguai até fevereiro, caso não haja mudança em uma nova legislação local de direitos autorais. Em outubro, um texto aprovado no Congresso do paisito – sob protesto do Spotify – abriu margem para que artistas cobrem diretamente das plataformas pela reprodução de suas obras. A empresa afirma que já paga “cerca de 70% de cada dólar que gera” para as gravadoras, e que, por contrato, caberia a elas repassar os valores para os criadores – um pagamento direto aos próprios artistas tornaria o negócio “insustentável” por duplicar os gastos, alega a companhia. Políticos governistas agora tentam pressionar o presidente Luis Lacalle Pou – que ignorou pedidos da empresa por uma reunião – a revisar o texto, apontando que a saída do Spotify do país acabaria prejudicando músicos menores, que não contam com gravadora e usam a própria plataforma como único local para lançar seus materiais. Na CNN.
VENEZUELA 🇻🇪
“Bem-sucedida”. Foi assim que o governo de Nicolás Maduro definiu uma simulação eleitoral realizada no domingo (19), exatamente três semanas antes de eleitores serem – aí sim – convocados oficialmente para votar em um referendo nacional a respeito da reivindicação venezuelana sobre Essequibo, um território rico em reservas naturais e que compõe 70% do território da vizinha Guiana – e em disputa desde o século 19. Usando a oportunidade para o autoelogio, o chavismo disse que o resultado satisfatório do simulacro comprova a capacidade de “transparência” e “eficácia” de seu sistema eleitoral – talvez numa tentativa de afastar as críticas da oposição e de observadores internacionais ao Conselho Nacional Eleitoral (CNE), já de olho nas eleições de 2024 (entenda o que cerca a votação). Segundo o CNE, mais de 20 milhões de cidadãos estão habilitados a votar no dia do plebiscito não vinculante marcado para o próximo dia 3/12. A semana também teve um encontro em Caracas entre Maduro e o assessor do governo Lula e ex-chanceler Celso Amorim para tratar do tema. Na teleSUR.
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