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🪫 Lítio: pintado de sangue, ‘ouro branco’ é retrato de exploração na América do Sul

‘Crônicas do Lítio’ resgata bastidores da exploração de mineral crítico para a transição energética global; use o cupom do GIRO para adquirir o livro com desconto especial

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jun 18, 2026
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Extração de carbonato de lítio no Salar de Uyuni, sul da Bolívia. Foto: Secretaría General Iberoamericana via Flickr

Convertido no primeiro trilionário da história nesta semana, Elon Musk entrou no radar da política latino-americana em 2020, poucos meses após o violento golpe que tirou Evo Morales do poder na Bolívia. À época, Musk falou sobre a importância estratégica do lítio (recurso abundante na nação andina e mineral que abastece as baterias de carros elétricos, como os da Tesla) e a pouca disposição do governo Morales em se dobrar ao interesse dos investidores gringos. Em suas redes, o empresário não deixou dúvidas sobre suas intenções:

“Vamos dar um golpe em quem quisermos, deal with it”.

O tweet de Musk, que depois se converteu em dono da própria rede social que rebatizou como X, mais tarde foi apagado. O fã-clube do empresário, que não é pequeno, apressou-se em tratar o assunto como uma ‘tirada sarcástica’. E, como a esquerda boliviana deu o troco nas urnas e voltou ao poder de forma acachapante com Luis Arce um ano depois do golpe, tudo meio que ficou por isso mesmo. No fim das contas, entre gestos nazistas, revelações de que tentou desesperadamente visitar a ilha de Epstein e uma meteórica passagem pelo governo de Donald Trump (conduzindo um escritório fantasma que prometia eficiência e entregou caos), o recém-anunciado trilionário e dono da Tesla seguiu acumulando recursos…

… enquanto a esquerda que governou a Bolívia no primeiro quarto do século 21 implodiu bruscamente no ano passado, dessa vez por rupturas internas, regidas por uma desavença filosófica entre Evo e Arce, seu antigo aliado. Após a fratura do Movimento ao Socialismo (MAS) entre uma ala de “evistas” e outra de “arcistas”, o país chegou a 2025 com as forças governistas tão desarticuladas que tomaram um nocaute eleitoral de grupos conservadores em todos os níveis (perderam a Presidência e praticamente sumiram na Câmara e no Senado). Quando a troca de poder ocorreu, golpistas como a ex-presidenta Jeanine Áñez foram rapidamente retirados da prisão.

As organizações populares que levaram a esquerda ao poder em outros anos não se desmobilizaram, muito longe disso: elas seguem numerosas e influentes, mas sua representação formal na política partidária, que atingiu níveis inéditos nos anos de MAS, encolheu e voltou a dar lugar a um tipo de pressão social que parecia a única força possível de se fazer ouvir antes da ascensão de Evo (quando a Bolívia, entre 1985 e 2005, viveu sob o arrocho de um modelo profundamente neoliberal que erodiu índices sociais): a demonstração de força nas ruas e estradas, mais especificamente bloqueando vias e exigindo melhores condições de vida.


Un sonido:

O levante popular que você vê hoje na Bolívia, deixando La Paz sitiada, não é exatamente inédito – na verdade, é uma estratégia recorrente para forçar governos avessos a pautas populares a se mexer e a ouvir grupos sociais, sindicais e campesinos ao longo dos tempos. Até Luis Arce lidou com situação similar após se distanciar de Evo. Mas, em nenhum momento dos últimos 20 anos, a Bolívia viu tanto entusiasmo dos Estados Unidos para defender um governo acuado pelas ruas como ocorre agora com Rodrigo Paz Pereira. Sua agenda pró-Washington na economia e na segurança ajuda a explicar por que a gestão Trump faz tanta questão de mantê-lo ali – e a tentativa de impor uma nova política em torno do lítio, mais aberta aos sabores do Norte, também é parte indispensável dessa equação.

No chamado Triângulo do Lítio, o pedaço da América do Sul que concentra as maiores reservas globais do mineral que tanto interessa às tecnologias de energia renovável, cada país adotou uma política própria para lidar com o recurso: a Argentina descentralizou a gestão, dando autonomia às províncias para ceder ou não a extração a empresas privadas; o Chile manteve parte do controle, mas avançou com uma série de parcerias público-privadas; e a Bolívia seguiu com um rígido controle do Estado sobre as reservas, mantendo a maior proporção de terras inexploradas do trio sul-americano.


Un mapa:

Na corrida pelo novo “ouro branco” sul-americano, ainda entram na jogada grandes empresas da China, maior produtora global de baterias elétricas e pedra no sapato de Washington quando o assunto é minerais críticos ou cadeias globais de suprimentos.

A forma como cada país lida com essa situação – e como, independentemente do modelo adotado, comunidades locais acabam sofrendo pela exclusão econômica ou pela destruição de seus ambientes ancestrais – é alvo de uma profunda e cuidadosa investigação narrada pelo jornalista argentino Ernesto Picco em Crônicas do Lítio, livro que a Editora Coragem lançou em 2026.


Dale un vistazo:

Hoje, após muitas idas e vindas na política dos três países, uma situação inédita (e preocupante) se coloca no horizonte: pela primeira vez, desde que o lítio adquiriu a importância estratégica que tem hoje, todo o Triângulo está nas mãos de governos de direita escancaradamente simpáticos aos Estados Unidos e aos seus interesses econômicos.

“O que pensam e como se movimentam as pessoas que comandam as grandes empresas que vêm para a América do Sul por causa do lítio?”

— Ernesto Picco em ‘Crônicas do Lítio’

É nesse contexto que Crônicas do Lítio questiona os reais impactos e jogos de poder por trás de um mineral crucial para a transição energética global: “O que realmente está acontecendo nesses lugares onde ninguém vê o que está acontecendo? Como as comunidades indígenas resistem? Negociam com o quê? Que interesses estão em jogo para os governos locais e internacionais? O que dizem os homens e mulheres que se dedicam a pesquisar esse recurso? O que pensam e como se movimentam as pessoas que comandam as grandes empresas que vêm para a América do Sul por causa do lítio?”

E vamos além: quanto ainda pode ser cedido? Com quantos tweets golpistas é construído um trilhão de dólares? Para entender melhor o que está em jogo, partindo de uma jornada que começa há mais de um século, Picco oferece um relato fluido, estradeiro e informativo que coloca o leitor no meio dos desertos sul-americanos onde o recurso do futuro (que pode se tornar passado mais rápido do que imaginamos) é alvo de disputa desde muito antes do advento dos carros elétricos e das ameaças nas redes sociais.

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