🪖 Imperialismo no Istmo: como terror gringo em terras panamenhas virou espelho do presente
‘Panamá, pequena Hiroshima’, de Stella Calloni, mergulha na violenta ocupação estadunidense que mudaria o destino do país centro-americano na reta final do século XX, com ecos até hoje

Na América Latina, o dia 3 de janeiro cheira a pólvora.
Antes da recente invasão dos EUA à Venezuela, que culminou na morte de dezenas de soldados e na captura e prisão do presidente Nicolás Maduro à margem do direito internacional, era comum ver análises e crônicas voltando no tempo – mais precisamente, para o mesmo 3º dia do ano – para recordar o que havia sido, até então, a última vez em que tropas estadunidenses pisaram em solo latino-americano com fuzis nas mão para fazer algo do tipo.
Ao primeiro soar das bombas em território venezuelano, uma linha invisível, com 36 anos de extensão, conectou o mapa do país sul-americano à história de um vizinho continental, localizado mais acima: o Panamá.
O manual do que os EUA fizeram, fazem e (provavelmente) farão de novo para invadir um país à força é sempre muito parecido. Em nome da ‘liberdade’ e do ‘combate ao crime organizado’, tropas gringas – com mais de 27 mil soldados – chegaram ao país do Istmo no fim de 1989 para tocar o que foi batizado (por eles mesmos, é claro) de “Operação Causa Justa”.
À diferença do breve e fulminante ataque em Caracas, a missão no Panamá não semeou terror por apenas algumas horas. Tudo começou no final do ano anterior, em 20 de dezembro de 1989, evoluindo para uma longa e violenta ocupação que só acabaria em fevereiro do ano seguinte – até mesmo depois da captura e prisão do general panamenho Manuel Antonio Noriega, em 3 de janeiro.
Noriega não era oficialmente o presidente do país (um erro comum ao contar essa história), embora fosse inegavelmente o “homem forte” do governo ao comandar as Forças Armadas. Contra ele, pesava outro argumento que voltaria a ecoar décadas depois – a acusação estadunidense de que sua gestão contribuía e lucrava diretamente com o narcotráfico; mesmo que, no caso de Noriega, haja até mesmo provas documentais de sua colaboração com agências gringas para coibir a circulação de drogas, em um período em que a própria CIA atuava para produzir e distribuir cocaína e crack.
Muitas décadas depois da invasão ao Panamá, mas ainda cerca de um ano antes da incursão recente na Venezuela, o presidente estadunidense Donald Trump mostraria ao mundo que nem mesmo aquele velho cinismo seria necessário para montar a caixa de ferramentas da política externa da Casa Branca.
E isso apareceu logo no segundo discurso de posse de Trump. Nele, o Panamá acabaria como o único país latino-americano citado nominalmente – é claro, por razões ruins e já à sombra de ameaças muito preocupantes.
“Nós não demos à China, demos ao Panamá, e estamos pegando de volta”, bradou o republicano, alegando (sem provas) que o Canal do Panamá, infraestrutura vital para a economia do país e para o comércio global, estaria sob influência chinesa. De tanto Washington prometer agir para “pegar o Canal de volta”, o governo panamenho se viu forçado, mais de uma vez, a declarar sua própria soberania sobre a estrutura, afirmando que o controle da hidrovia não estava em negociação.
Esses elementos inflamáveis – o Canal, a soberania panamenha em risco, o assédio perpétuo dos EUA e o temor de novas invasões militares com rastros de sangue – são os líquidos embebidos na obra “Panamá: Pequena Hiroshima”, da escritora e jornalista argentina Stella Calloni. A obra é parte do catálogo de lançamentos da Editora Coragem em 2026.
O trabalho combina uma ampla exposição de documentos com os relatos em primeira pessoa de quem testemunhou a invasão em 1989. Calloni traz à tona as provas dos verdadeiros interesses dos Estados Unidos na intervenção – e das violências gratuitas e desmedidas cometidas contra a população civil do Panamá, negadas repetidamente por Washington, mas que, com o passar dos anos, se tornaram cada vez mais difíceis de ocultar.
Dale un vistazo:
Ao longo do livro, emerge a questão central da invasão gringa: a contagem regressiva para o cumprimento dos Tratados Torrijos-Carter, uma série de acordos assinados em 1979 que previa a entrega definitiva do Canal ao país centro-americano até o final do século XX, dali a duas décadas (isso efetivamente se concretizou, em 31 de dezembro de 1999). Para que a saída estadunidense fosse feita da forma planejada, 1990 era o ano em que as primeiras desativações de áreas militares, por décadas sob o comando de Washington, deveriam começar.
Mas entre a assinatura do tratado e a invasão, muita coisa aconteceu nos dois países, em particular a mudança de lideranças. O general Omar Torrijos, um líder mais popular do que Noriega jamais seria, morreu em um mal explicado acidente aéreo em julho de 1981 – ao longo da história, muitas correntes e autores defendem que a tragédia foi obra da própria CIA; outros dizem que Noriega teria agido a mando dos EUA em rechaço à postura anti-imperialista e às ambições revolucionárias de Torrijos.
Já nos EUA, o governo do democrata Jimmy Carter chegou ao fim com crise econômica e baixa aprovação em 1981, dando início a 12 anos de republicanos empedernidos que fizeram de tudo para reverter muitas de suas políticas e reativar a faceta militar mais agressiva do país do norte. Nesse período, primeiro veio Ronald Reagan, infame por sua ingerência na Nicarágua e em El Salvador, e depois, já quando as bombas caíam sobre o Panamá, George Bush pai.
Ao enlaçar a história, o livro revela, na apresentação à edição brasileira, como o presente e o passado se conectam, com uma série de lacunas na construção da verdade histórica vendida pelos EUA:
“Além disso, ele [Trump, ao tomar posse pela 2ª vez] considerava muito altas as tarifas cobradas pela administração do Canal, que está nas mãos dos panamenhos desde 1999, data acordada nos Tratados assinados pelo ex-presidente americano James Carter e pelo general panamenho Omar Torrijos em 1977. Entre outros argumentos falsos, alegava que 38 mil norte-americanos morreram na construção do canal do qual se apoderou os Estados Unidos. Na realidade, os milhares de mortos eram jamaicanos, escravizados negros e indígenas, os mais pobres entre os pobres. Nenhum panamenho firmou o infame Tratado de 1903 [que concedeu aos EUA o direito perpétuo de construir, administrar e fortificar o Canal do Panamá] para os EUA construir o canal e apoderar-se colonialmente do país”.
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